Proteção solar: mitos e fatos

É muito comum no consultório dermatológico os pacientes questionarem sobre a proteção solar. Perguntas desde sua real importância, sobre a eficácia e a toxicidade dos protetores solares disponíveis no mercado, a importância de se expor ao sol para evitar a deficiência de vitamina D ou sobre o melhor produto a ser utilizado.

Por isso criei este post para responder algumas destas perguntas, baseando-me no último guia sobre fotoproteção publicado pelo Journal of the American Academy of Dermatology1.

1. Preciso mesmo usar protetor solar diariamente?

SIM

– A luz visível presente em ambientes fechados tem raios UV;

– Acumulamos os danos diários da radiação na pele;

– O índice de radiação no Brasil durante o almoço é extremamente alto. Portanto a caminhada para ir almoçar diariamente pode ser prejudicial à sua pele;

– Cria o hábito de cuidar da sua pele diariamente.

A fotoproteção diária parece irracional para muitas pessoas, principalmente para aquelas que trabalham em ambiente fechado o dia todo. Não há dúvida que o risco para se ter danos na pele decorrentes dos raios ultravioletas (UV) é muito maior quando há exposição direta e contínua ao sol. No entanto, estudos2 mostraram que a luz visível, presente em ambientes fechados como escritórios, apresenta raios UV e que estas luzes comprovadamente estimulam as células que produzem o pigmento na pele. Além disso, muitas pessoas têm o hábito de saírem no ambiente externo para almoçar, ou seja, no horário de maior índice UV do dia. Isto pode significar um risco aumentado para o câncer de pele uma vez que nossa pele acaba acumulando os danos provocados pelos raios UV ao longo do tempo.

Sempre digo aos meus pacientes que o hábito de aplicar o protetor solar nas áreas expostas do corpo diariamente evita as queimaduras decorrentes de exposições solares não programadas (uma caminhada no meio do dia por exemplo) e cria o hábito do cuidado mínimo diário na pele.

2. Os protetores solares podem ser tóxicos à minha saúde?

TALVEZ

– O efeito adverso comum e comprovado que pode acontecer com o uso de protetores solares é a Dermatite de contato;

– Alterações hormonais ligadas ao uso de protetores solares com Oxibenzona tópica foram observadas em pesquisas em ratos, mas esta relação não foi vista em estudos em humanos.

– O benefício do uso do protetor solar diário supera o risco de algum efeito adverso, no caso, o risco de uma dermatite.Por isso a recomendação atual é de SE PROTEGER DOS RAIOS UV PREFERENCIALMENTE COM ROUPAS, CHAPÉUS E FUGINDO DA EXPOSIÇÃO SOLAR DIRETA E UTILIZAR O PROTETOR SOLAR NAS ÁREAS NÃO COBERTAS (COMO O ROSTO, DORSO DAS MÃOS, ETC.)

Muitos pacientes se preocupam com a toxicidade dos protetores solares químicos, principalmente porque muitas reportagens afirmam que o risco de problemas com o uso do filtro solar é maior que o risco para o câncer de pele. A Oxibenzona (Benzofenona-3) é um filtro orgânico que absorve os raios UV e é o componente presente na maioria dos protetores solares comercializados. Um estudo mostrou alterações hormonais dose-dependentes em ratos com o uso desta substância. No entanto, estudos em humanos com uso de oxibenzona tópica na dose recomendada (6% nos protetores solares) não causou nenhuma alteração hormonal em humanos. O grande problema desta substância é que cerca de 50-70% das alergias (dermatites de contato) a protetores solares são provocadas pela oxibenzona.

Assim, outras substâncias têm sido testadas, como bemotrizinol, bisoctrizole ou ecamsule (Mexoryl). Os dois primeiros de amplo espectro (protegem contra UVA e UVB) mas ainda não aprovados em muitos países e o último que protege apenas contra UVA, portanto não recomendado se usado isoladamente.O uso de protetores solares químicos tem se comprovado seguro, desde que não surjam alergias relacionadas ao uso.

Além disso, os danos dos raios UV na pele são comprovadamente ligados ao surgimento dos cânceres de pele tipo melanoma e carcinomas, portanto a necessidade de se proteger do sol é indiscutível! O uso de roupas com proteção UV, óculos e chapéus são outras formas de nos protegermos mas ainda há a necessidade do uso do filtro solar em áreas descobertas como o rosto e dorso das mãos.

3. Os bloqueadores solares (protetores físicos) são melhores?

DEPENDE

– São os protetores de escolha para crianças de 6 meses a 2 ano;

– Por terem menor durabilidade na pele e pelo resíduo que deixam (aspecto esbranquiçado), nos adultos a primeira opção é o uso de protetores solares químicos.

Os protetores físicos mais utilizados são o Dióxido de Zinco, que protege contra UVB mas não totalmente contra UVA, e Óxido de Zinco, que protege contra UVA e UVB, porém com absorção variável dependendo do produto (varia conforme o tamanho das partículas). São os protetores solares de escolha para as crianças de 6 meses a 2 anos, mas por saírem com facilidade e deixarem resíduo (aquele aspecto esbranquiçado) não são muito recomendados no uso diário no adulto. Atualmente estão em estudo as formas de nanopartículas destes componentes, que dariam proteção ampla e mais duradoura com melhor cosmética. No entanto, alguns estudos in vitro sugerem que estas nanopartículas poderiam formar radicais livres que causariam danos na pele. Portanto, ainda temos que aguardar mais resultados e manter o uso dos protetores solares físicos já tradicionais.

4. Preciso ou não tomar sol para manter minha Vitamina D em dia?

NÃO

– O risco de ter um câncer maligno na pele aumenta com a exposição aos raios UV. Por isso o risco relacionado à exposição solar é maior que o benefício para manter a vitamina D em dia através da exposição solar.
-A suplementação de Vitamina D deve ser indicada pelo seu médico no caso de uma deficiência relatada em um exame de sangue. É importantíssimo manter seus níveis no sangue nos valores normais!
-Mas mantenha a proteção solar sempre!

Para que tenhamos a forma ativa da Vitamina D no nosso corpo precisamos do raio UVB para transformar a pró-vitamina D (7-dehydrocolesterol) na pré-vitamina D3, o precursor da Vitamina D ativa do corpo. A deficiência da Vitamina D está ligada a episódios de fraturas, quedas, doenças cardiovasculares, neurológicas, câncer, diabetes e depressão. Então, não há dúvida que temos que manter a dosagem de Vitamina D ativa do nosso corpo nos níveis adequados.  Para tal, muitos acham que devemos recorrer ao sol. No entanto, o raio tipo UVB está presente principalmente entre as 10 e 16 horas do dia, ou seja, o horário do sol que devemos evitar.Como no cenário atual o câncer de pele é o tipo de tumor maligno mais comum em todo mundo, inclusive no Brasil, e sua incidência está aumentando, a recomendação atual é para que seja feita a suplementação de vitamina D com comprimidos ao invés de indicarmos o sol para tal.

Portanto, se seu médico solicitou o exame de dosagem sérica de Vitamina D e foi identificado uma deficiência desta vitamina no seu sangue, você não precisa correr para o sol! Primeiro porque a quantidade de UVB que cada pessoa necessita para manter sua vitamina D em dia é muito variável, dependendo de sua predisposição genética. Outro ponto é que você não quer aumentar suas chances de ter um câncer de pele, acumulando no DNA das células da sua pele o dano que os raios UV causam. Fale com seu médico para que a reposição via suplemento vitamínico seja feita segundo a dosagem que você necessita e mantenha o uso de protetores solares, roupas, chapéus e óculos de sol! Esta é a melhor maneira de cuidar de sua saúde de uma forma integral!

5. Os protetores solares “anti-envelhecimento” funcionam?

SIM

– Cuidado com produtos que anunciam ter poder antienvelhecimento!

– O uso diário de qualquer protetor solar na face retarda o envelhecimento cutâneo e melhora o aspecto da pele.

Muitas empresas cosméticas têm lançado protetores solares com efeito antienvelhecimento, o que é muito atrativo!!! Algumas marcas associam aos protetores solares substâncias antioxidantes, como derivados da Vitamina A, C e E, componentes do chá verde e outros. Porém estudos nos EUA que testaram 12 marcas destes protetores solares com antioxidantes comercializadas naquele país comprovaram que 10 não apresentavam poder antioxidante e 2 marcas tinham pouco deste efeito. Isso porque os antioxidantes são muito instáveis e difíceis de manipular.

Um estudo conhecido como Nambour trial demonstrou que o uso diário do protetor solar simples (sem substancias antioxidantes) levou a uma redução do envelhecimento da pele em 24% comparado ao grupo controle que não fez uso do protetor solar.

Mas não desanime em usar o filtro solar diariamente! Um estudo conhecido como Nambour trial demonstrou que o uso diário do protetor solar simples (sem substancias antioxidantes) levou a uma redução do envelhecimento da pele em 24% comparado ao grupo controle que não fez uso do protetor solar. Além de melhorar as manchas, diminuir o surgimento de novas marcas.

Portanto, para quem quer ter uma pele saudável e retardar seu envelhecimento
o protetor solar diário deve ser o número 1 de sua lista de produtos para o rosto!

 

Dra. Lílian Licarião (CRM-SP 140.754| RQE 40.207)

Autora: Dra. Lílian Licarião (CRM-SP 140.754| RQE 40.207)

Referências:
1. Challenges in photoprotection- JAAD – março de 2017 – Vol 76 – Number 3;
2. Impact of long-wavelenght and visible light on melanocomponent skin. J Invest Dermatol. 2010; 130:2092-2097.
3. Sunscreen and prevention of skin aging: a randomized trial. Ann Intern Med. 2013; 158:781-790.

Imagem: Storyblocks.

2018-03-05T13:42:14+00:00
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